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06 de setembro de 2010
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José Carneiro

jneto@ucb.br
Graduado em economia,28 anos, é mestre em economia (UCB) e doutorando em administração (finanças) pela UnB. Ex-professor de finanças do Departamento de Administração da UnB, atualmente é professor do Departamento de Economia da Universidade Católica de Brasília e gestor de risco da Portfólio Investimentos.


A Conta, Por Favor!


13 de julho de 2009




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Várias fantasias surgiram no mundo, e no Brasil, desde o início da crise imobiliária americana.

Como já está ficando chato desmascarar os pastores da Santa Igreja Keynes Eterno do 8o Dia, e alguns “novos” especialistas têm aparecido na área, vou ser mais direto que o usual.

As políticas estão erradas! São ruins!

Quando se faz tanta besteira quanto às porcarias propostas pelos desenvolvimentistas do atraso, alguém paga a conta. Infelizmente, não serão os “Doutores da Fantasia”, mas sim o carregador de papel. VIVA LA Redistribuición!

Como usual, vamos por partes.

·         Redução Seletiva do IPI.

Este portal, e eu, defendemos abertamente o corte de impostos como uma forma de se enfrentar a crise. A fundamentação econômica dessa idéia é tão simples que um aluno do Jardim I é capaz de desenvolvê-la. De qualquer forma, vamos lá.

Impostos caem, o preço dos bens e serviço cai. Com bens e serviços mais baratos e com pessoas que preferem o consumo presente ao consumo futuro, há um incentivo à manutenção dos níveis de consumo, ou, ao menos, de uma redução em sua queda, mesmo no caso de piora na expectativa de renda futura.

Por mais que as pessoas concluam que serão mais pobres do que esperavam, a queda dos preços ajuda a reduzir a magnitude da queda na expectativa inter-temporal da renda.

 E a redução do IPI, ajuda? NÃO da forma como foi feita!

Com a queda na expectativa de renda, os agentes econômicos ajustam seu nível de consumo. Dois efeitos colaboram para esse ajuste:

i)             Por um lado, alguns têm dúvidas sobre a sustentabilidade de seu nível de renda no curto-prazo, o que poderá levar os agentes a eventuais problemas de liquidez .

ii)            Por outro lado, alguns têm revertida sua expectativa de aumento da renda futura, o que levará ao ajuste de seu consumo presente.

Infelizmente, ou não, os agentes econômicos não respondem de forma linear a ganhos e perdas. Tversky e Kahneman (1992) estimaram que a resposta a perdas é 2,25 vezes mais forte que a resposta a ganhos. Ou seja, o indivíduo médio fica mais triste por perder 100 Reais do que ficaria feliz por ganhar 100 Reais. Pelo número encontrado por TK, a tristeza por perder 100 Reais é igual à felicidade de se ganhar 225 Reais. Outros estudos encontram números próximos de 2, o que parece ser uma estimativa robusta.

O número estimado por TK nos leva a um ponto interessante, em situações de grande incerteza quanto ao futuro agentes econômicos não apostam (investem ou consomem). A reversão do quadro só ocorre quando a incerteza cai.

Como o governo pode ajudar nisso? Simples, com políticas consistentes e coerentes. O corte de impostos, casado ao corte de gastos, pode ser uma alternativa. Cortar gastos sem cortar impostos não funciona, assim como cortar impostos sem cortar gastos.

Por quê?

Simples.

Governo corta impostos, mas não gastos: surge uma forte incerteza sobre como ele se financiará. De fato, o próprio processo de financiamento do déficit, que será via dívida ou inflação, aumenta a incerteza dentro do ambiente econômico. Ou o governo provoca um descompasso entre preços relativos, o que aumenta os custos de informação e planejamento dos agentes (inflação), ou concorrerá com a iniciativa privada por recursos e, num cenário de queda de arrecadação, poderá não ser capaz de “reativar” a economia antes que comprometa sua liquidez.

Governo corta gasto, mas não impostos: Reduz a incerteza quanto a sua solvência futura, mas não cria nenhum incentivo para que os agentes não reduzam seu consumo.

Cortar impostos e gastos: sejamos sinceros, o gasto público no Brasil é um lixo. Miranda e Gasparini (2007) estimaram que os municípios jogam fora metade dos seus orçamentos, Piola (2004) chegou a conclusão semelhante sobre o sistema de saúde e Oliveira (2007), com técnica e banco de dados diferentes dos de Piola (2004), chegou ao mesmo número.

Ao cortar impostos e gastos, o governo não contribui para o aumento da incerteza no logo prazo e não corre o risco de contaminar sua solvência de curto-prazo, nem de suas empresas. Com o corte de impostos, cria incentivos para que as pessoas consumam, o incremento no risco de solvência gerado pelo consumo cai. Além do mais, os agentes já têm preferência pela liquidez e o presente ficou “mais barato”.

Então, para enfrentar a crise nosso governo deveria:

i)             Cortar impostos linearmente.

ii)            Cortar gastos de custeio.

iii)           Aumentar a qualidade com que investe, o que pode ocorrer ao se cortar gasto com investimento (discutirei isso num post futuro, essa conclusão vem de minha experiência com a Emenda 29)

Mas e o IPI dos automóveis, eletrodomésticos e construção civil? A medida não está funcionando?

Sim, para as montadoras, fabricantes de eletrodomésticos e empreitaras. Todo o resto da economia paga a conta!

A brincadeira é assim: as pessoas acreditam que a renda futura é mais incerta e, fatalmente, menor do que antes. Como resposta para esse novo cenário, reduzem o consumo de todos os bens normais. Bens de extrema necessidade têm seu consumo menos reduzido, outros, tidos como supérfluos, têm seu consumo mais reduzido e, outros, ficam no meio termo.

Tanto o fabricante de carrinho de brinquedo quanto o de carro de verdade, o vendedor de coco ou o restaurante chique, a pequena fábrica de tecido e a distribuidora de energia elétrica etc, todos têm sua demanda reduzida em maior ou menor grau, o que dependerá de quão necessário os consumidores julgam ser o produto comercializado por eles.

Aí vem o governo e reduz o IPI dos automóveis. Ora, agora o carrinho de brinquedo está mais caro se pensado em termos de carro de verdade, o mesmo vale para a camisa, chiclete, tênis, caneta, lanche, abajur, estante etc. Logo, o consumir é estimulado a consumir o carro e não as outras coisas.

As montadoras, construtoras etc (beneficiados pela redução) irão manter, ou terão uma menor queda (ou mesmo alta) em suas demandas. Já o resto.. bem... o resto sofre pela segunda vez.

Primeiro o seu João, que fabrica camisa, teve sua demanda reduzida pela crise, pois o Cláudio está mais incerto sobre o futuro. Em seguida, após o “grande” pacote ante crise, o seu João teve uma nova queda em sua demanda, pois o Henrique, ao invés de comprar a camisa, comprou um carro.

Os amigos metalúrgicos e empresários do governo estão protegidos, já o seu João... bem... ele que se lasque, pois um desenvolvimentista qualquer decidiu que os metalúrgicos eram mais importantes que ele. O único problema com essa idéia é que o seu João representa TODO o resto da economia, responsável por mais de 80% do emprego no país.

Como os números da produção industrial já mostram, a revelia da promessa keynesiana do efeito multiplicado super-hiper-mega-milagroso, enquanto montadoras e construtoras batem recordes, o resto da economia paga a conta.

·         Política de Crédito

Há, na literatura de contratos, um termo chamado Seleção Adversa. A idéia desse termo é simples: por algum motivo seu processo de seleção não funciona bem e, ao invés de selecionar pessoas boas, só seleciona pessoas ruins.

Tornar o crédito mais fácil e longo de forma forçada, sem que as instituições tenham evoluído de maneira a tornar os instrumentos de cobrança mais eficientes e que haja alguma esperança real de que as pessoas serão mais ricas no futuro e, assim, poderão pagar a conta, é pedir por problemas. Foi isso que o governo americano fez na década de 1990, quando a base da crise sub-prime foi construída. É isso que o governo brasileiro faz hoje, principalmente no setor imobiliário.

Se a incerteza quanto ao futuro aumentou, as pessoas mais responsáveis evitarão tomar grandes empréstimos parcelados em longos anos, pois sabem que já em poucos meses podem ficar inadimplentes. Se o governo tenta incentivar a contratação dos empréstimos e para isso facilita sua concessão, provavelmente cairá numa situação de Seleção Adversa e terá uma carteira podre nas mãos.

Só um lembrete, diferente do caso americano, uma crise dessas no Brasil seria quase que exclusivamente paga pelo governo e comprometeria a solvência da caderneta de poupança e do FGTS.

Bem, além de irresponsável, a política de crédito que o governo tenta desenvolver é danosa para economia, pois cria incentivos que são incompatíveis com o péssimo modelo institucionais do país, o que os torna inconsistentes no longo prazo. O resultado, crises e mais crises.

Como grande agente financiadora da habitação, os primeiros efeitos de uma política tão ruim como a do nosso governo serão sentidos pela Caixa Econômica Federal.

Então amigos, vejamos o resultado que a CAIXA divulgará em breve. Se forem excepcionais, talvez os desenvolvimentistas estejam corretos, se forem horríveis, eles mudarão de discurso, mas inventarão alguma mentira que acoberte seus erros (esse blog tem prova documental desse comportamento).

Bem, de fato, a CAIXA será a primeira evidência óbvia de que as políticas desenvolvimentistas estão erradas, seus funcionários, os primeiros a pagar diretamente pelo “erro” do governo. Vejamos quem os sindicalistas culparão pelo ano sem PLR, ou com cortes de função.

 

 

Abs

José Carneiro

PS: Vou ao Rio de Janeiro para um curso de gestores de Venture Capital. Só volto a postar na próxima semana quando, prometo (tentarei cumprir dessa vez), falarei sobre mecanismos de transmissão da política monetária.

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